12 de Julho de 2010

Povo bom é o povo morto!


A classe média vive distante do povo: geograficamente, economicamente, profissionalmente, ideologicamente.

Não quer dizer que não tenha contato com o povo, pelo contrário, ela pode morar perto, ter um nível de renda não muito distante e estar no mesmo ramo de atuação (em outra posição logicamente...), mas o fato é que existe uma distância, percebida pelo nas roupas, na fala, no tipo de assunto, cor de pele e outros coisas mais ou menos sutis.

A distância faz do povo um desconhecido para a classe média e na “ausência” do povo real surgem idealizações mil sobre quem seria essa entidade: “o povo”. A imaginação da classe média sobre o povo é marcada pelo distanciamento e certo remorso de classe, pois no fundo a classe média sabe que vive bem às custas do povo. Além disso, existe sempre um sentimento de superioridade por parte da classe média.

A classe média é um bicho esquizofrênico, com a mente bipartida, metade esquerda, metade direita. São partes que se encontram dentro de cada indivíduo da classe média; às vezes uma predomina, às vezes outra, na maioria das vezes ambas convivem contraditoriamente dentro da pessoa.

O lado direito é mais simples. Discriminação, humilhações, desprezo total pela cultura popular, subestimação da inteligência alheia, pena de morte para os pobres mal comportados e um pouco de caridade pode resumir a atitude desse lado. Para o lado direito o povo é uma “classe perigosa”, os “feios, sujos e malvados”.

O lado esquerdo é mais complexo, me interessa mais. Nele o remorso de classe é consciente e impulsiona atitudes mais benevolentes para com o povo, ele procura focar nos aspectos positivos e luta contra os “preconceitos” do lado direito. O lado esquerdo é “cidadão”, socialista muitas vezes, embora sejam, sempre, classe média.

Nessa relação classe média / povo, um aspecto chama muito minha atenção: a música; até porque a música é tida e havida como elemento definidor da nossa brasilidade.

O lado esquerdo da classe média venera a música popular. Mas como a classe média é distante do povo real ela venera a idéia de música popular que ela mesma construiu. E como a idéia de povo do lado esquerdo é muito boa, a música popular legítima só pode ser muito boa, deve ser muito boa.

Mas há um grande problema. Quando a classe média olha a música que o povo faz e ouve ela não gosta da maioria das coisas: o forró do “cãozinho dos teclados”, o Calipso, o pagode da periferia e o funk dos bailes são absolutamente abomináveis para a classe média! A classe média condena tudo neles, da musicalidade às letras, da dança ao jeito de se vestir.

Certamente isso não representa todo o gosto musical do povo brasileiro mas devemos reconhecer a expressiva a “popularidade” desses ritmos, independente do gosto musical e do juízo de valor de cada um de nós. E isso é um problema tremendo para a classe média, pois ela idealizou em seu “lado esquerdo” um povo “legítimo” “raiz”, bem distante das perversões do funk, do calipso e do pagode. Eis que então aparece uma solução mágica! Essas “perversões musicais” passam a ser encaradas como “imposições da mídia” e da indústria musical que corromperiam a pureza da verdadeira cultura popular. Assim, de uma tacada só, o povo é inocentado (sujeito inerte...) de culpa por essas músicas repugnantes e a burguesia insaciável é culpada por desgraçar a cultura popular.

Eis que surge então, como um super-herói para salvar o povo, o lado esquerdo da classe média! Sim, essa classe média assumirá a missão histórica de ensinar ao povo qual é a verdadeira cultura popular! Afinal, essa cultura “raiz”, a única cultura popular legítima, precisa ser “resgatada” e devolvida ao povo; e assim, a classe média ataca de Adoniram contra o Só prá contrariar, Luis Gonzaga contra Frank Aguiar, Toni Tornado contra a Gaiola das Popozudas. Desnecessário (ou necessário?) dizer o quão arrogante é essa postura professoral da classe média, postura de classe dominante.

Se repararmos bem, foi a classe média quem inventou a Música Popular Brasileira, M.P.B., uma sigla, uma marca que carimba o que é digno ou não de ser chamado de popular. O engraçado é que os autores eram (e são ainda!) quase sempre da classe média, o público é quase sempre da classe média, os lugares onde se apresentam de classe média. Seria a música popular? Mesmo sem músicos e ouvintes do povo?  Eles insistem em se chamar de Música Popular Brasileira! Ao menos a musicalidade é legitimamente popular? Pode ter certa inspiração na raiz popular, mas é algo um tanto diferente.

Lembro dos relatos de Zé Ketti e Cartola sobre os primeiros contatos com gente da Bossa Nova. Longas viagens de ônibus, o estranhamento com a zona sul do Rio, Tom Jobim e Vinicius mandando algum funcionário comprar cachaça e cerveja: só bebiam whisky, tocavam jazz americano e queriam misturar um pouco de samba na coisa. Relato exemplar que explica um pouco essa coisa que virou a “M.P.B.”, um rótulo que serve de barricada contra as perversões populares que insistem em se reproduzir contrariando os cânones do que deve ser o popular.

É curioso como quase tudo que a classe média admira na cultura popular pertence ao passado, já repararam nisso? São sempre culturas, tradições e músicas do passado, quase extintas, que se tornaram objeto de curiosidade, de estudo.

Talvez exista algum estudo (e se não há é uma boa sugestão) sobre a atitude da classe média com a música popular nas diferentes épocas. Pelo que sei a classe média sempre repudiou a cultura popular que era contemporânea, e sempre passou a admirá-la depois de morta, “empalhada” e devidamente absorvida tempos depois.

Os comentários da classe média sobre o samba nas primeiras décadas do século invariavelmente condenavam a “malícia” e a “sensualidade”. “Formosa”, palavra que ouvimos em vários sambas do passado, hoje parece uma termo até requintado. O passado tem esse poder de envernizar de requinte uma palavra que “traduzida” para hoje seria algo como - Gostosa. Enfim, há uma infinidade de sambas e forrós que deveriam soar tão sexualmente agressivos aos ouvidos puristas daquela época como alguns funks de hoje em dia que chocam o lado esquerdo da nossa classe média, tão ciosa das tradições. Seriam eles neo-reacionários? Dá o que pensar...

Um dos resultados da cultura popular da classe média é a existência de diversos barzinhos e botecos que tocam o que se considera a legítima música popular, inventaram a algum tempo o termo “samba de raiz”, termo que não diz nada sobre o estilo de samba, apenas que é “de raiz”, “das antigas”. O curioso é que nesses lugares o povo real comparece quase sempre minoria ou como músico. O preço é meio salgado, enfim, o lugar ´”é de bacana”, embora toque a verdadeira música popular, a tal “de raiz”, para a classe média obviamente.

O problema do lado esquerdo da classe média é que seu ideal de povo não pode ser maculado, o povo deve ser bom. É como se ele tivesse medo de reprovar algo no povo e suscitar seu lado direito, reacionário.

Simbolicamente a classe média mata boa parte do povo real, que gosta de “podreiras”, esse povo não tem direito à cultura, tudo para que o povo ideal seja puro, seja raiz, um povo imaginário que a classe média produz para ela mesma cultue esses valores e se sinta menos burguesa.

A parte direita da classe média quer a pena de morte, quer o zé povinho que ousou roubar e sair de seu lugar morto. A parte esquerda da classe média exige do povo uma “cultura popular” que não existe mais, que só existe num povo do passado, morto e enterrado.

É como se dissessem: - Tirem daqui essa música pervertida e massificada pela mídia! Eu quero o povo morto e ideal, o povo legitimamente popular! Eu tenho medo e nojo desse povo real, degradado pelo funk, pelo pagode, pelo forró! Se esse for o povo, talvez o lado direito esteja certo, ele é mesmo deplorável...

Ironicamente uma sentença pode unir estas duas partes da esquizofrênica classe média: “povo bom é povo morto!”

PS: A idéia do texto é refletir sobre o tema, pessoalmente gosto tanto de coisas que podem ser enquadradas como "raiz" - sem precisar de justificativas ideológicas - e de coisas que podem ser enquadradas como "podreiras" - sem a menor vergonha na cara.

6 comentários:

  1. texto muito bom, mas faltou dizer que uma parcela grande da classe média adora funk, rap e pagode. e não esta nem ai se esses ritmos são considerado lixo pelo seus pares mais "sofisticado". Nesse sentido a classe média é o objeto de idealização do autor.
    Eduardo

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  2. SHow o texto.. Um tapa na cara...

    A música Popular Brasileira nem é tão popular assim....

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  3. É um texto agressivo e, se for pensar, muita gente se encaixa nisso. Incluindo eu.

    Parabéns, adorei o texto e me serviu como uma bronca na hora de mudar algumas das minhas convicções.

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  4. Fantástico o texto. Como o Igor, sinto-me "acusada" por ele - e é merecida a acusação! Fantástico quando vc diz que a música popular antiga é venerada: afinal, povo como peça de museu tá tudo bem, néam?

    Enfim, parabéns!

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  5. E ninguém entende quando digo que funk é o novo samba. Sensacional! Bota tapa na cara nisso.

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  6. Sicilio: obrigado por sua opinião mas achei o texto generalista. Discordo de várias partes, concordo com algumas muito superficialmente. Bons costumes devem sim ser cultivados e isso sim é o que separa as pessoas, não a classe social. Conheço pessoas que teriam todos os requisitos necessários para se enquadrar na classe média tanto repudiada pelos ideólogos, pessoas estanque gostam de músicas realmente populares como funk e forró.

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